Fonte: Site Olhar Crônico Esportivo – Emerson Gonçalves
http://colunas.globoesporte.com/olharcronicoesportivo/2010/02/07/o-futuro-das-bases-esta-em-jogo-na-justica/
Ou, enquanto a bola rola nos gramados pelos importantíssimos torneios estaduais, aguardando o início da Copa Libertadores, uma outra disputa está sendo travada, mais importante para o futuro dos clubes do que qualquer um desses torneios.
O jornal O Estado de S.Paulo de sábado informou que a desembargadora Sonia Maria Forster do Amaral, do Tribunal Regional do Trabalho, decidiu que o São Paulo FC pode registrar o contrato de Lucas Piazon. O jogador, que completou 16 anos há poucos dias, e seus pais, entraram na justiça pedindo que o clube não pudesse registrar contrato assinado entre as partes – clube e responsáveis pelo jogador – quando ele tinha 14 anos. Segundo a magistrada “a celebração de contrato de trabalho para o futuro, como fizeram as partes, não infringiu qualquer disposição legal”.
Esse contrato, que entraria em vigor dia 20 de janeiro, 16º aniversário do atleta, garantiria seu vínculo com o São Paulo por três anos, até completar 19. Segundo o advogado do clube, há 5 anos o São Paulo faz contratos de aprendizagem com seus jovens atletas e negocia uma garantia para preservar o vínculo uma vez completados 16 anos. Essa medida não impede ninguém de sair, mudar de clube, de país, desde que respeite o contrato e pague a multa estabelecida.
Em sua decisão, a desembargadora foi além e disse que “o tempo de espera (pelo julgamento final do processo) não será determinante em sua carreira profissional, até porque o próprio jogador diz que jogar no clube é a realização de um sonho”.
Segundo a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, Lucas Piazon já estaria treinando no Corinthians, cujo presidente, Andrés Sanches, correu a buscar o garoto, buscando, com esse gesto, vingar-se do São Paulo, que, segundo ele, tirou o garoto Marcelinho da base corintiana.
Desde o final de 2009 até agora, três atletas tricolores buscaram a justiça visando quebrar seus vínculos com o São Paulo: Oscar, Diogo e Piazon. Nos três casos o clube conseguiu reverter a decisão inicial no caso Oscar, e garantir a permanência, ao menos juridicamente, de Diogo e Lucas.
Há algo mais para entender nessa história?
Com certeza, sem a menor dúvida há muito mais o que entender com tudo isso que está acontecendo. Embora torcedores adversários e até dirigentes façam piadas e comemorem as ações contra o clube do Morumbi, o que está em jogo pode afetar todos os clubes brasileiros e colocar em risco o trabalho de formação de atletas. Por isso mesmo, os dirigentes adversários com um mínimo de visão estão preocupados e torcendo, aberta ou discretamente, por uma vitória do São Paulo em todos os processos. Até porque, numa análise fria, como os clubes dependem e dependerão mais ainda de suas divisões de base para sobreviverem e faturarem, é o próprio futuro deles que está em risco.
Se os reclamantes vencerem um, dois ou os três processos, mais que o precedente, estará criada jurisprudência a respeito. Com isso, nenhum empresário deixará de buscar na justiça a liberação de jogadores jovens, para imediatamente negociá-los com clubes europeus ou mesmo brasileiros. Levada às últimas consequências, isso tornaria inúteis e sem futuro todos os trabalhos com divisões de base no país, pois os clubes perderiam até mesmo a relativa proteção jurídica que têm hoje.
Para quem gosta, uma conspiração
As pessoas gostam de histórias de mistério, de tramas rocambolescas, de conspirações de todo tipo. A internet está sempre repleta com as mais delirantes teorias conspiratórias possíveis. O que está acontecendo hoje com essas idas quase simultâneas à justiça enquadra-se à perfeição numa bela teoria conspiratória.
Dizem os especialistas nessa teoria, que justamente por ser o São Paulo o clube tido como mais organizado, além de ter um excelente trabalho de base, foi ele o alvo do ataque de pessoas interessadas em quebrar os vínculos dos jovens atletas com seus clubes, aumentando, assim, o tamanho do mercado para negociar jogadores e ao mesmo tempo facilitando as negociações. Muitos clubes com menor poder de fogo e estruturas internas com problemas tornar-se-ão vítimas fáceis para empresários e advogados. Basta vencer agora e criar a jurisprudência.
Se vitoriosas, essas ações impedirão o Santos de manter um novo Robinho, um novo Neymar, que foi emancipado há dois anos e assinou novo contrato com o clube já com essa condição, contestada por Oscar. Ou, ainda antes dos 16 anos, Neymar foi levado ao Real Madrid para uma “visita”. Foi e voltou, pois o Santos tinha proteção semelhante à que tem o São Paulo com Lucas Piazon. Derrubadas essas práticas na justiça, volta a questão: algum clube, em sã consciência, vai investir um centavo que seja em trabalho de base?
Por enquanto, para felicidade dos clubes brasileiros, o São Paulo está garantido pela justiça. Oscar voltou ao CT, mas só treina e segue falando para a imprensa que não é mais jogador do clube e que não jogará por ele. Diogo não se reapresentou ainda, contrariando, inclusive, recomendação de sua advogada. Lucas, como disse a Folha, estaria treinando no Corinthians. Em tempo: nesse caso não creio em nenhuma teoria conspiratória. Simplesmente, em função do litígio, o jogador caiu de presente nas mãos do presidente corintiano, que acreditou ser um bom troco à perda de Marcelinho.
Nos três casos teremos novas ações judiciais, julgamentos, recursos, liminares… Provavelmente, se tudo correr dentro da normalidade e nos prazos normais da justiça, essa disputa durará alguns anos. Não será impossível que as três carreiras promissoras sofram prejuízos. Muitas vozes erguer-se-ão gritando contra tamanha injustiça. Nesse caso, porém, tudo indica que a parte injustiçada é o clube. Mesmo porque esses atletas, como já reconheceu a justiça ao menos num primeiro momento, são tratados corretamente em todos os sentidos pelo clube.
Eu mesmo sempre ironizo as inúmeras teorias conspiratórias que aparecem na internet ligadas ao futebol. Nesse caso, todavia, fica um pouco mais difícil simplesmente dizer que é mera coincidência os três atletas do mesmo clube entrarem na justiça ao mesmo tempo, praticamente. Ficamos com a impressão que há muito mais por trás, justamente como prega a teoria da conspiração.
Uma coisa, porém, é muito fácil de concluir: o futuro dos clubes brasileiros está em jogo nesse momento e não é nos gramados, não é nos estaduais, não é na Copa Libertadores, é nas salas dos tribunais.
E uma derrota do São Paulo será uma derrota de todos os clubes brasileiros.
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